Chaurichaura Express

O Chaurichaura Express, para Gorakhpur, está previsto para as 00h30.
Mas como de costume chegamos à estação algum tempo antes.

A estação de Varanasi em dimensão é equivalente à nossa estação de Sta Apolónia.
O seu átrio está completamente cheio de gente deitada no chão em cima de folhas de papel plastificado, que vi a venderem à porta da estação. Outros deitam-se em cima de folhas de jornal. Essas são grátis. 

De vez em quando aparece um polícia com uma vara na mão e um apito que vai “espantando” as pessoas deitadas. Aparentemente não se pode dormir ali.

Mas quando ele sai, deitam-se todos novamente.

Assim que se aproxima a hora vamos até ao apeadeiro.

Começamos a ouvir anúncios em hindi e em inglês. O Chaurichaura Express vem atrasado. Primeiro 15 minutos, depois mais 15, depois ainda outros 15… e outros….

Tal como no átrio da estação e no pátio exterior, há centenas de pessoas a dormir no chão em cima de folhas de jornal. Não têm malas como nós e como os outros passageiros. Não estão atentos aos anúncios dos atrasos. Não estão de passagem. Esta estação é a casa deles e enquanto esperamos sentados em cima da mochila, eles dormem ao nosso lado sob a luz omnipresente que inunda o apeadeiro.

Quando a locomotiva do Chaurichaura Express entra na estação já passa da 1h30.
Como a hora já vai avançada e como mais uma vez só conseguimos bilhetes em Sleeper, eu vou preparada para o estendal de gente deitada no chão… Mas na nossa carruagem não se vê nada disso e até há lugares vazios.

Há uma pessoa a dormir no meu lugar. Mas ao contrário do que se passa noutros sítios, nomeadamente em Portugal, isso não quer dizer “tivesses chegado mais cedo”…
Nunca vos aconteceu? Quando encontramos alguém sentado no nosso lugar e é um “vê se te avias” para conseguirmos provar que aquele é o nosso lugar? Quando é necessário mostrar o bilhete de comboio com o lugar marcado, mas em resposta obtemos vários comentários do tipo “esta juventude está perdida, já nem cedem o lugar aos mais velhos” ou “como já me sentei não me volto a levantar”? E acabamos por nos sentar no lugar vago que pertence a outra pessoa que entra na estação seguinte… e por aí em diante? E ai de quem contrarie, pois o “respeitinho pelos mais velhos é bom e eu gosto”?

Pois na Índia se alguém está sentado num lugar que não é o seu, quando chega o respectivo passageiro, levanta-se automaticamente. Sim, é verdade. Independentemente de já ser tarde e já estar a dormir, de ser um idoso ou uma mulher a dar de mamar. O lugar não é deles, por isso vão procurar outro. Sem stress.

A noite no comboio é tranquila e curta.
Acordamos de madrugada com os campos junto de Gorakhpur invadidos por uma neblina matinal espessa.

O rapaz do beliche do lado mete conversa. É programador de software. Quer ir viver para Londres. Pergunta o que sabemos sobre a Primavera Árabe e sobre os conflitos no Egipto. Diz que o maior problema da Índia é o excesso de população e sabe tudo sobre a crise económica Europeia. 
Está bem informado. 

Viaja com o pai, regressam a casa depois de um fim de semana em que foram conhecer a família de um pretendente para a sua irmã. Aqui é normal as famílias arranjarem os casamentos, mesmo as famílias de programadores de software bem informados. 
O pai observa à distância a nossa conversa e depois pede ao filho que nos faça uma pergunta. Quer saber se Portugal já aboliu a pena de morte.

“- Oh, que país moderno o vosso!” Comenta depois.

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  1. Gostei desta tua viagem 🙂

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