Shivalinga

Varanasi é a cidade de Shiva, o deus da destruição, ou como alguns preferem, da transformação.
Tenho que dizer que considero o panteão hindu muito complicado. Saber o nome de alguns deles e o que significam é fácil, pelo menos na teoria, mas reconhecê-los nas suas muitas representações é uma missão no mínimo ambiciosa.
Esta viagem representa o encontro entre duas mega-religiões, o hinduísmo e o budismo, uma Shiva meets Budha trip. E em Varanasi, encontramos Shiva. Esta é a sua cidade.
Aliás, encontramo-lo em toda a parte sob variadas formas.

A mais usual é a lingam, o símbolo fálico de Shiva, a pedra preta que representa o poder criador e a energia masculina que existia no momento em que foi gerado o universo. A lingam é representada sobre uma base arredondada a que se chama yoni e que representa o lado feminino da criação.

Outro símbolo de Shiva é o touro branco, chamado Nandi, o seu veículo e mais fiel servo. Normalmente aparece deitado à frente dos templos dedicados a Shiva e simboliza agressividade e força.

Na realidade Shiva é o deus, de aparência humana, mais fácil de identificar. Está muito ligado ao Rio Ganges, que se diz brotar da sua cabeça, normalmente apresenta-se com um tridente na mão, uma cobra ao pescoço, ou no meio de fogo. O fogo é o elemento da transformação e está sempre presente nos momentos de puja (devoção) em toda a cidade, e claro, nas cremações.

Em Varanasi vemos muitos sahdus, homens santos praticamente despidos ou enrolados em trapos de cores fortes, de cabelo enriçado e atado sobre a cabeça. Muitos deles são seguidores de Shiva.

Passam os seus dias em contemplação meditativa sobre o Ganges, fumando hashish ou pedindo esmola em troca de orações, de boa sorte… e de fotos.
Quando tentamos visitar o Golden Temple de Varanasi, o Kashi Vishwanath, um dos templos dedicados a Shiva mais sagrados do hinduísmo e da Índia, somos proibidos de entrar por não sermos hindus.

Imagino que o mais correcto de se fazer seria ter compreendido, respeitado e encaixado que o mais provável era de qualquer maneira não sermos capazes de entender nada do que se passa no interior desse templo.
Mas já me estava a chatear esta questão dos “infiéis” não poderem mostrar o seu respeito por outros credos na Índia, ainda mais depois de termos entrado em tantos templos no Rajastão incluindo o templo de Brahma em Pushkar… Por isso resolvi comentar com o proibidor que se estivéssemos em Portugal a ele não lhe seria vedada a entrada em nenhum dos nossos locais sagrados.

Bem sei que estava a pedir um “então volta prá tua terra” mas não foi isso que aconteceu. Lá nos permitiu entrar após registo dos nossos passaportes, uma revista exaustiva e absoluta proibição de levar qualquer objecto para o interior (incluindo documentos e dinheiro).
E se valeu a pena? 

Vi algo que nunca tinha visto antes. Uma multidão em transe religioso, um frenesim para avistar e estar perante um dos 12 Jyotirlingas, um dos 12 locais onde Shiva se terá manifestado sob a forma de uma coluna de fogo.

Os devotos de pés descalços, mãos e testa pintadas de vermelho vão entoando cânticos enquanto esperam pacientemente para poder tocar na lingam, a pedra preta arredondada que repousa num recipiente dourado. 
Reparo que não sei como agir, onde hei-de colocar as flores e velas, se hei-de benzer-me, se estarei mal vestida… sou verdadeiramente uma estranha. Decido fazer como eles e encosto-me à mulher da frente enquanto espero pela minha vez. 

Sinto o mármore frio e húmido por baixo dos pés, ouço o tilintar das pulseiras da mulher à minha frente, cheira a suor e a flores esmagadas, os indianos fazem as suas oferendas de flores, arroz, incenso e pó colorido… 

E de repente abre-se um espaço e sou empurrada para tocar na lingam enquanto os sacerdotes derramam um leite gorduroso sobre a pedra preta e nas minhas mãos…


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