Poorva Express

Às 16h20 parte o Poorva Express em direcção a Howrah.
Está previsto chegar a Varanasi às 06h00… mesmo a tempo do nascer do Sol.

Há muitas classes nos comboios indianos e as condições variam do ar condicionado com mais ou menos privacidade, com cortina ou sem cortina, com lençol ou sem lençol, com 2 ou 3 beliches, com ventoinha ou sem ventoinha, sentado, deitado, por aí fora.

Comprámos os bilhetes no cleartrip.com, um site indiano tão fácil quanto eficaz, mas o melhor que conseguimos -mesmo com 2 semanas de antecedência- foram 2 bilhetes confirmados em Sleeper, a classe mais baixa das carruagens com beliche.
Diga-se de passagem que 2 semanas não é nada. O sistema de reservas de um comboio de longo curso na Índia abre 90 dias antes do dia da viagem.

A espera na estação é sempre um tempo que gosto de gastar.
Não há momento que me sinta mais eu do que aqueles que passo sentada em cima da minha mochila numa plataforma ferroviária, observando as pessoas passarem, enquanto espero que um comboio me leve para outra paragem… se bem que na Índia quaisquer planos voyeristas saem furados pois são as pessoas que ao passar param a olhar para nós.

Quando o Poorva Express chega ao apeadeiro os passageiros vão ocupando os seus lugares.
Ao nosso lado sentam-se 3 estrageiros e 3 indianos. Mas mais indianos continuam a chegar e a sentar nos bancos. Primeiro 3, depois 5… depois as suas malas, sacos, caixas e caixotes… não paravam de chegar indianos para se sentarem nos nossos bancos….
Estranhamos… mas não há que estranhar. Estamos na !ncredible India por isso no lugar de 3 cabem 5 ou 6.

Na realidade o sistema de reservas dos comboios indianos é muito claro: no momento em que se compra o bilhete ele pode ter 3 status: CNF (confirmado), RAC (reservation against cancellation, quando num comboios, mesmo depois de cheio, ainda existem uns quantos beliches vendidos em overbooking onde se viaja partilhando o lugar com outra pessoa) e WL (waiting list).
Não é possível viajar com um bilhete com status WL, mas se alguém desistir da viagem é possível que o bilhete WL sofra um upgrade para RAC ou até CNF. No momento de embarcar é afixado um quadro com os nomes das pessoas, o status do seu bilhete e o seu lugar respectivo.
Também estão afixados os WL que não sofreram upgrade e cujos passageiros não poderão embarcar mas poderão ser reembolsados do valor do bilhete.

Era necessário fazer esta introdução antes de dizer que havia 600 pessoas em WL na classe Sleeper deste comboio. Claro que na !ncredible India estar em WL não interessa nada. E assim,  a nossa viagem de Delhi para Varanasi começou com uma percentagem de ocupação de lugares de 200%.

Deixamos Delhi. Os subúrbios são intermináveis.
O tempo vai passando… o comboio vai-nos embalando… mas acordamos sempre repentinamente quando passa o rapaz do chai gritando “TCHAI! TCHAI! TCHAI!”.
Das primeiras vezes recusamos timidamente, respondendo ao rapaz “no thank you”… 
Só penso “será que a água foi fervida?”… “será que os copos de plástico são reutilizados?”…  “qual será o tempo de incubação do virus da hepatite A?”… etc… 
Mas à quarta vez aceitamos alegremente o chai açucarado e ligeiramente leitoso…”que se lixe”

Nas horas de jantar, são os rapazes do biryani que passam nas carruagens. O biryani é o prato de arroz nacional: frito com vegetais, com um copinho de iogurte curdo para misturar… delicioso! São 50 cent. Comemos vários biryanis ao longo da noite. 
Não se passa fome nos comboios indianos.

Os indianos “a mais” (em WL) iam sorrindo comprometidos ao mesmo tempo que continuavam a tentar arrumar os seus pertences no espaço vago que ia surgindo. Trocavam risinhos e iam fazendo perguntas sobre nós para criar proximidade… Ia ser uma noite longa.
Quando o revisor chegou notamos o tom de discussão, mas ninguém foi expulso do comboio… e lá continuaram trocando risinhos…

… risinhos que eventualmente desapareceram com o avançar da noite quando as pessoas que efectivamente tinha lugar marcado decidiram uma após outra que estava na hora de dormir e começaram a montar os beliches.

Os indianos “a mais” acabaram por se ajeitar dormindo sentados à vez, nos bancos aos pés dos passageiros dos beliches inferiores, mas por fim acabaram todos por deitar-se no chão… uma visão nada compatível com aquilo que estamos habituados. Principalmente se no mesmo chão estiverem também espalhadas cascas de amendoíns, cascas de laranja, invólucros da prata dos byrianis, os copinhos do chai… e também, dois ratinhos a perseguirem-se um ao outro.

Também sabem que não se passa fome nos comboios indianos.
Costuma dizer-se que quem não andou num comboio indiano não viajou realmente na Índia.
Concordo. Esta é uma das verdadeiras experiências indianas.
Mas para uma “extreme indian railway experience” eu acrescentar-lhe-ia 2 palavras: “em Sleeper”.

Chegamos a Varanasi às 06h30…
Verifico várias vezes o interior das minhas botas antes de calçá-las… Ponho a mochila às costas e dirijo-me para a porta de saída porque na Índia é costume entrar primeiro e deixar sair depois…

Estamos a viajar e a dormir mal desde que saímos de Lisboa há 2 dias e meio, por isso não consegui ainda realizar que, finalmente, 6 anos depois, cheguei à cidade sagrada de Varanasi… (!!)

Tenho tanta sede que só penso numa coisa: onde raio anda o rapaz do chai??

6 Comments Add yours

  1. Brilhante descrição.

    🙂

  2. Anónimo diz:

    nunca vivi uma experiência semelhante!! deve ser completamente alucinante!!!! adorei =)

    ana

  3. fm diz:

    com a apaixonada e detalhada descrição é como se lá estivesse(quase quase).
    imagino a parte que não dá para ver pelas fotos e pelo relato feito, aquilo deve ter uns odores no minímo peculiares…bom, isto é mesmo só inveja.

  4. MH diz:

    My GOD !!
    Acho é que devias compilar tudo e fazer um livro.

  5. VagaMundos diz:

    Brutal experiencia! Uma aventura dentro da grande aventura que é a India 🙂

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