World Most Dangerous Road

24-Setembro-2009

O ponto de encontro é sempre o mesmo: Café Alexander, Av.Prado, 7:00.
Aos poucos junta-se um grupo de algo como 30 estrangeiros que se preparam para aquela que é vendida como a aventura mais wild da Bolívia: a descida do alto de La Cumbre a 4800m até Coroico a 1200m, pela antiga estrada do Yungas, mais vulgarmente conhecida como a Estrada Mais Perigosa do Mundo.
Escolhemos a agência Gravity Assisted Mountain Biking sediada em La Paz, simplesmente porque é a melhor.

Os 30 estrangeiros são divididos em 2 grupos. Somos apresentados ao Dave, o nosso guia neozelandês, a fazer uma perninha na Bolívia enquanto não continua a sua viagem pelo mundo.

No alto de La Cumbre dão-nos o equipamento “believe me you’ll need it!” (luvas, viseira, capacete, casaco e calças impermeáveis, colete reflector, protecção para pescoço) enquanto somos apresentados às nossas bicicletas que já vêm “calibradas” de acordo com as nossas necessidades e preferências, enviadas no momento da inscrição online (altura do banco, travão da frente do lado esquerdo).

Dave explica-nos as regras da descida, que basicamente se resumem a uma: nunca ultrapassar o guia que vai na frente do grupo. Ponto.
E depois de breves noções de mountain biking e do necessário sacrifício de álcool à Pachamama (a deusa da terra) começamos a pedalar.

(foto: wikipédia)

Estou ansiosa. Não sou grande master da bicicleta e só me lembro das imagens dos powerpoints que circulam nos emails, de camiões a cruzarem-se nesta estrada… e alguns com as rodas a resvalar no precipício. Aqui não há margem para erros..

Os primeiros troços são em alcatrão e sempre a descer, nem precisamos de pedalar.
A paisagem é do outro mundo. Mas estão sempre a alertar-nos para irmos com atenção à estrada e não olharmos para a paisagem… histórias de clavículas e costelas partidas sucedem-se…
Faço batota e fico prá trás… apesar de não ter máquina para fotografar tenho que gravar estas imagens na minha memória.

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Fazemos várias paragens nas quais o grupo se junta e onde o Dave aproveita para nos explicar as características dos troços seguintes.

Atrás de nós, segue-nos de perto o mini-autocarro que nos levou a La Cumbre com bikes suplentes.
Em Unduavi (+- a 10km de La Cumbre) é o checkpoint da polícia onde são revistados todos os carros em busca de cocaína e/ou ingredientes não autorizados que podem levar à sua produção.

Os 40km que se seguem, de Unduavi a Coroico pela estrada velha são absolutamente estrondosos. Um agigantar dos sentidos em todas as direcções.

Antes de entrarmos no percurso de terra batida e na estrada velha propriamente dita reparamos no cartaz com o bodycount deste ano, como medida de sensibilização dos condutores… até agora 43 mortos.

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Lama. Fazemos o percurso com chão lamacento e cascatas a inundar a estrada já de si estreita, atravessamos nevoeiro cerrado nas zonas mais altas… factor que ajudou os que sofrem de vertigens…
Em certas zonas a estrada é pouco mais larga que o próprio autocarro, os precipícios têm perto de 600m de profundidade… cruzes semeadas à beira da estrada sucedem-se… esquecemos as clavículas partidas… aqui contam-se outro tipo de histórias.

As regras de trânsito são diferentes… “keep your left”… ou seja, temos a indicação para percorrer a estrada pelo lado esquerdo, o que para quem desce significa ir junto aos precipícios. Foi o modo que encontraram para que os veículos que descem terem maior visibilidade nas curvas.

Fico pasmada com o estado da principal via de comunicação entre o Altiplano e a Amazónia, entre o Brasil e o Pacífico. Não admira o elevado número de mortos estimado em 300 por ano. Imagino em que condições terá sido construída pelos prisioneiros da Chaco War nos 1930’s.

Há alguns anos, para tentar reduzir as estatísticas catastróficas anuais, foi introduzido um esquema de tráfego alternado conforme os dias da semana, o que baixou consideravelmente o número de acidentes. No entanto os condutores de camiões rebelaram-se uma vez que isso prejudicava as suas receitas… e assim o tráfego foi reaberto nos dois sentidos.

Em Dez-2006 foi inaugurada uma variante multimilionária a ligar La Paz a Coroico que retirou finalmente a maior parte dos carros da estrada mais perigosa do mundo. No entanto alguns comerciantes continuam a fazer o caminho pela estrada antiga, por ter menos kilómetros e assim pouparem combustível… ainda que continuem a demorar mais tempo…


Para nós pareceu-nos uma autêntica ciclovia de curvas perigosas. Devemos ter-nos cruzado com 2 ou 3 carros a subir…

Em Yolosa acaba a descida. Faz calor e a lama desapareceu. Almoçamos na Senda Verde, uma organização non-profit onde se recolhem animais mal tratados ou retirados do mercado negro. Há duches quentes e piscina, mas eu perco-me no fetuccini à bolonhesa… à descrição…


Adorei a subida de autocarro.
Adorei o facto do nevoeiro ter levantado ligeiramente e termos podido ver o cenário imponente, fantástico e aterrador em que nos encontrávamos.

À chegada a La Paz fazemos o bodycount: 0 feridos e 0 mortos. Sobrevivemos…

Nenhuma “história” para contar…
(2009-09-24 Ride photos by Gravity Bolivia)

5 Comments Add yours

  1. Vagamundos diz:

    Real Wild Bike trip 🙂 Espectacular! As fotografias dão uma bela ideia do cenario, que já é um mito por si só.
    Bjs

  2. fm diz:

    3600m de diferença altimétrica, por uma paisagem destas, deve ser realmente extraordinário…

  3. CAP CRÉUS diz:

    Espectáculo! Parabéns, granda passeio!!

  4. e-lemur diz:

    Que grande descida!!.. Pela tua imagem dá para ver que ias a uma velocidade extrema 😉 !! beijos radicais

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